quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Retalho 3 - E se...?


"Antes de vir para a nossa escola, ele era campeão de judô. Aos 28 anos, no auge da fama, abandonou as competições e veio prazerosamente ensinar no curso secundário: e não era apenas isso que sabíamos dele. Também havia abandonado a esposa, juntamente com um filho de apenas alguns meses. Era algo que surpreendia a todos, inclusive a mim mesma. Ficava me perguntando, afinal, quê diabos estaria fazendo um homem com uma família formada, com toda aquela fama e com tudo para ser feliz, principalmente dinheiro, naquela cidadezinha mixuruca, sem família e ganhando uma ninharia. Para mim, pura loucura e falta de noção.

Ao longo do ano, fui percebendo que aquilo realmente o fazia feliz. Era o que parecia, ao menos. Sempre de bom-humor, respondendo às dúvidas e explicando aos alunos com a maior vontade! Definitivamente, era o professor que mais me agradava, ao mesmo tempo em que era o mais misterioso. Ele podia ser a alegria em pessoa, mas nada falava sobre sua vida pessoal, e ninguém ousava perguntar.

Numa segunda-feira, onde sua aula era a última, fiquei com uma dúvida e resolvi esperar o término para perguntar. Ele respondeu com aquela boa vontade de sempre, e como o assunto interessava a ambos, uma conversa acabou se desenrolando. Fomos caminhando lentamente até a porta enquanto mergulhávamos naquela conversa tão divertida, que naquele momento, levou-me a fazer uma pergunta, talvez infame:

- Professor, o que teria Filosofia a ver com Judô?

- Muita coisa. – Respondeu-me de imediato e logo olhou para o chão, parecendo pensar mais seriamente – Ou talvez nada mesmo. – Sorriu naturalmente.

Retribuí ao sorriso, meio sem graça e com um enorme ponto de interrogação taxado em minha cara. Eu não via um sentido certo na resposta dele.

Fui para casa pensando nisso, e passei boa parte do meu dia assim. Mas com o decorrer das horas a gente vai se preocupando com algumas coisas e esquecendo outras, né?

E assim foram as outras oito segundas-feiras: eu esperava a aula terminar para tirar alguma dúvida, e nós acabávamos conversando um pouco. Os assuntos sempre variavam muito. Na nona segunda-feira, conversamos sobre o meu futuro. Era legal saber que as nossas conversas o agradavam a ponto de deixá-lo curioso sobre mim. Respondi toda empolgada:

- Adoraria fazer jornalismo!

- Hum, uma boa escolha. E você realmente se interessa por jornalismo?

- Por enquanto, sim! Claro, pode ser algo completamente diferente do que eu imagino, mas eu só vou descobrir se eu fizer. E, até agora, é algo que me interessa muito. Apesar de que acho que farei Direito.

- Direito? Por quê?

- É. Meus pais querem que eu seja advogada. “Vai ganhar muito bem e não vai passar fome, além de que, assim, terá condições de nos dar mais que dois netos!” é o que eles dizem. Só que eu não me interesso nem um pouco por Direito, muito menos por filhos. Claro, talvez mais para frente eu queira ter um filho; talvez até lá o meu instinto materno já tenha surgido. Mas eu, definitivamente, não quero mais que um. E eles querem que eu tenha um monte! É um saco, nem consigo ter uma conversa de verdade com eles sobre isso. É a vontade deles e pronto: eu não posso ter opinião.

- E você está mesmo disposta a fazer o que eles querem?

- Não sei.

- Não faça, se você realmente não quiser. Pense nos outros, mas faça por você mesma, e não por eles. Se você não se sentir bem fazendo o que eles querem, não faça. Você pode arruinar a sua vida.

- Arruinar a minha vida?

- Sim.

- Com todo o respeito, professor... Foi o que aconteceu com o senhor?
- Eu confio em você, e acredito que tenha maturidade para saber que isto não deve sair daqui.

- Não sairá.

- Obrigado.

Respondi com um pequeno sorriso.

- Eu nunca gostei de judô. E a minha vida se resumia nele. Desde pequeno meus pais me obrigaram a fazê-lo. No começo eu gostava, achava o máximo derrubar meus coleguinhas e ser, quase sempre, o melhor da turma. Só que isso começou a ficar sério: comecei a ganhar muitos campeonatos, a treinar mais, a ter mais exigências vindas dos meus pais e do meu treinador... O judô tinha virado, para mim, a pior coisa. Eu não o fazia mais por vontade própria. Era obrigado a treinar mais e a participar dos campeonatos. E quando eu não os ganhava, a família inteira me olhava de cara feia, além do professor, que me mandava fazer sei lá quantas flexões, polichinelos e o “diabo a quatro”. Em meio a esse inferno todo, havia uma coisa da qual eu gostava muito: colégio. Principalmente as aulas de Filosofia. Com aulas de apresentação de trabalho, onde se tinha que explicar a matéria para a turma, descobri que eu realmente gostava era de ensinar e de discutir assuntos, expondo a minha opinião (coisa que eu não podia fazer em casa). Quando terminei o colégio, fui obrigado a entrar numa faculdade de Educação Física. Meus pais me puseram numa faculdade particular, e foi aí que aproveitei a oportunidade: entrei numa federal cursando Filosofia. Foram anos de muita batalha e correria. De manhã eu treinava, a tarde fazia faculdade de Filosofia e a noite fazia faculdade de Educação Física. Ainda bem que os campeonatos eram apenas aos sábados e domingos. Com muito esforço, consegui terminar as duas faculdades sem problemas e sem descobrirem a que eu fazia à tarde. Mas depois de concluí-las, não tive mais descanso mesmo. – Deu ênfase ao “mesmo” – Minha vida se tornara treino e campeonato. Não tinha vida social, não fazia nada que eu queria.

- Mas como o senhor conheceu a sua esposa?

- Ex-esposa. – Novamente, deu ênfase à palavra – Também casei com ela por vontade dos outros. É filha do homem que me treinou. Meus pais e meu antigo treinador já planejavam isso há anos. Ela sempre estava nos treinos, auxiliando o pai. Confesso que aqueles olhos cor do céu e aquele jeitinho meigo e tímido sempre me encantaram. Mas não era o que eu, nem o que ela, queríamos. Acabamos casando, mesmo contra a nossa vontade. Tentamos nos amar, tentamos nos acostumar com aquela vida. Mas, graças a mídia, nem para isso tivemos tempo: fizeram-me o deus do judô para o mundo inteiro! Quanto mais eu aparecia, mais treino eu tinha, mais peso vinha sobre mim. E o tempo que tinha para poder aprender a amá-la, eu era obrigado a usar para descansar. Eu tentei, com todas as minhas forças, ter um tempo para nós. Não só por mim, mas por ela também. Eu tinha pena da Sofia: fora obrigada a casar com um homem que mal tinha tempo para ela, que mal a conhecia e que não a amava, mesmo vendo-a todos os dias. Era triste. O pior era que não se abria comigo, não me falava nada do que achava de tudo aquilo, e quando eu sentia que ela ia tentar, alguém sempre vinha falar comigo e interrompia. Como eu disse, ela não falava nada, mas eu via em seus olhos uma imensa tristeza, a cada dia maior. Sentia-me mal por tudo: pelo peso que jogavam em mim, por fazer o que eu não gostava, pela falta de vida própria, por fazer uma mulher infeliz, por não ser capaz de amá-la... Minha vida estava arruinada.

- Meu Deus. Nunca imaginei uma coisa dessas. – Falei boquiaberta. Eu, na verdade, jamais esperei que o professor me contasse tantos detalhes assim. Aliás, jamais esperava que ele fosse falar alguma coisa sobre o passado! – E como o senhor veio parar aqui?

- Um dia, numa pausa do treino, a Sofia me levou uma garrafa de água. “Você está feliz com essa vida?” perguntou, e eu logo respondi: “Não. Você está?”. Ela ficou um tempo calada olhando para o nada. “Também não. O que acha de nos libertarmos?”. Nesse instante, o treinador me chamou para voltar ao treino. Olhei para ela como quem não quisesse ir, para continuar a conversa. “Vai lá. Depois a gente continua”. Acenei com a cabeça e voltei ao maldito treino. Com as pequenas pausas para beber água, fomos desenrolando uma conversa meio sem sentido para mim, onde só ela falava. “Eu vou me libertar. Não agüento mais”, “Gostaria que você se libertasse também”, “Espero que não fique mais triste do que já é e que saia desse inferno, assim como eu vou fazer” foram as três coisas que ela me disse naquela conversa. Elas só fizeram sentido para mim um mês depois, quando a Sofia me entregou um papel. Havia me puxado para um canto escondido numa das pausas do treino. “Rápido, abra!”, ela me disse, aparentemente contente. Abri e li: era um exame de gravidez, dado positivo. “De quando é isso?” perguntei, e ela respondeu com um enorme sorriso: “De ontem!”. Fiquei sem entender, afinal, já fazia quatro meses que não nos tocávamos. Ela então me abraçou forte e cochichou: “Viu? Estou me libertando”. Foi aí que eu entendi tudo. Sorri e retribuí ao abraço. “Eu entendi. Obrigado”. Fiquei feliz ao vê-la conseguindo, aos poucos, sair daquela vida. Nós combinamos de dizer para a mídia que eu era o pai da criança para evitar escândalos. Escondidos, fomos formando uma vida fora daquilo tudo. Ela planejava com o seu amado onde morar e o futuro para o bebê, enquanto eu pesquisava alguma cidade pequena e calma, onde compraria uma casinha para morar e arranjaria um colégio para dar aula. Em um ano, sem ninguém saber, - além de nós mesmos e o namorado dela - já estávamos com tudo pronto para abandonar aquela maldita vida. O divórcio já estava em andamento, nós já havíamos comprado as nossas respectivas casas, arranjado os nosso respectivos empregos, Giuseppe, o bebê, já havia nascido... Estava tudo pronto para abandonarmos de vez aquela porcaria. Ela foi primeiro: mudou-se para o norte com o bebê e o namorado, deixando uma carta para os pais. Eu não sei como ficou a relação deles, mas sei que esconderam isso da mídia. Assim como no meu caso. Eu fiz o mesmo que ela, e eles também esconderam: disseram que eu havia fraturado o joelho e que não poderia mais lutar. Claro, os repórteres perguntaram onde me achariam, loucos por uma entrevista. Foi aí que surgiu a versão de que eu não estaria apto a mais nada...

Eu ouvi a tudo com muito interesse, alguma surpresa e uma considerável compaixão. Não imaginei uma dificuldade tão grande em alguém para ouvir o próprio coração. Nem teria concebido haver tamanha renúncia num homem. Muito menos naquele professor, tão sábio, tão gentil, tão atento com seus alunos e tão cheio de energias positivas. A complexidade de seu modo de ser me fascinou. Talvez um pouco além do seguro.

Num breve instante, nossos olhares se encontraram. E fizeram aquela conversa que coração e mente podem fazer de conta que não houve, mas o corpo saberá sempre o que realmente se passou.

O sutil embaraço tornou-se, pelo menos para mim, uma imagem doce, ainda que paralisante. Frases e comentários menores, repetitivos ou pouco pertinentes, surgiram. Um intervalo que já ocorrera antes. Eu podia imaginar até uma trilha sonora. Ele estava com uma ligeira dificuldade com o fôlego.

Súbito, uma buzina mais estridente, de um carro que passou lá fora, trouxe ambos para a realidade de novo. Ele pigarreou, ajeitou seus livros e sorriu, meio embaraçado. Eu respirei mais contidamente e levei as mãos ao cabelo, como quem precisava se arrumar.

- Eu... Preciso ir. – Ele falou.

- É... Eu também... – Respondi.

- Bem... Então até a próxima aula. E obrigado!

Mesmo sem entender o agradecimento, sorri timidamente e respondi do modo como aprendi desde pequena:

- Não há de quê, professor.

Cada um seguiu para seu caminho, tocados pela breve imagem de uma realidade alternativa que não poderia se concretizar. No próximo dia, a vida seguiria seu rumo. Mas naquele, só naquele dia, acredito que nós dois nos perguntamos várias vezes:

- E se...?"



Por Suzana Piazza, em 12/03/2008. Retalho único.


Uma redação para a escola. E a professora nem corrigiu. :(

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Retalho 2

Capítulo Um


"Era quinta-feira, dia quinze, e chovia forte. A cidade estava um caos, o trânsito parado, pessoas correndo para debaixo de qualquer lugar coberto, aglomerando-se, e eu, não muito diferente, corri e me enfiei em uma cafeteria. Ah, aquele cheirinho de café no fim da tarde... Era tudo tão novo e mágico! Nunca gostei de mudanças, mas confesso que esses aromas e sensações novas em seus inícios são maravilhosos.
A cafeteria era uma graça, baseada em arquitetura inglesa, com tudo muito delicado e detalhado, mas muito apertada. Em quinze minutos, ou nem isso, eu estava quase sufocando. As pessoas não paravam de chegar; era muita gente para pouco espaço. Faltava tão pouco para chegar em casa... Apenas quatro quadras!
Não agüentei por muito tempo e decidi arriscar. Posicionei a mochila sobre minha cabeça na tentativa de amenizar a água que viria a me molhar, e saí cafeteria a fora. Dei sorte! A chuva havia enfraquecido, chegando a tornar-se chuvisco. Sorri e diminuí o passo, andando tranquilamente. Podia sentir o cheirinho de terra molhada, o que me causou uma leve sensação nostálgica, a qual me invadiu e arrepiou por inteira. Lembrou-me minha antiga cidade, minha infância, as inúmeras vezes em que brinquei pela pequena mata próxima da minha casa, e até mesmo quando beijei pela primeira vez. Quantas doces lembranças, quanta saudade! Mas não pude apreciá-las por muito tempo; logo a chuva voltou à sua fúria, parecendo mais violenta a cada passo que eu dava. Voltei a acelerar minha caminhada, afinal ainda faltavam três quadras.
Em pouquíssimo tempo a mochila sobre minha cabeça já não era mais útil. Estava tão encharcada quanto eu, e a chuva não parava de aumentar sua intensidade. Agora, acompanhada de uma ventania, chegava a machucar meus braços e costas, vez ou outra inclusive interferindo meus passos. Andei mais um pouco, me esforçando para enxergar o que havia à minha volta, e, com muita dificuldade, consegui.
Concluí então que minhas opções eram somente duas: ou continuava o caminho para casa debaixo daquela chuva em cólera, ou refugiava-me, até a tempestade se acalmar, para um templo ali próximo. Pensei seriamente em insistir na ida para minha casa, mas desisti assim que um enorme e pesado galho atingiu o chão a milímetros de mim.
Corri velozmente para o tal templo e me posicionei sob uma borda de seu telhado exótico. A água caía com tanta força, e o vento estava tão furioso, que quase era em vão tentar me proteger lá. Mas eu não tinha escolha, aquele era o lugar mais seguro até então.
Passando-se alguns minutos, ouvi um ruído de porta se abrindo. Curiosa, e na esperança de ser acolhida, andei em direção ao barulho, chegando ao fim da parede na qual eu me encostava. Parei ao lado de uma escada, larga, de poucos degraus, que levava à entrada principal do templo. Olhei para cima e avistei uma enorme porta, de estilo oriental, escancarada. Não avistei ninguém, e lá dentro parecia estar vazio.
- Com licença, senhorita – Pulei de susto! Um senhor, careca e tão baixinho quanto eu, com vestes típicas de monges (a propósito, religião: nunca entendi, qualquer que fosse) havia cutucado um de meus ombros."

Escrito em 11/02/09, por Suzana Piazza.

(Este retalho pretendo costurar com outros que já tenho em mãos. Gostaria de fazer um belo vestido com eles).

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Retalho 1

"Sentou ao meu lado. Em todos os meus dias pegando aquele mesmo ônibus, nunca a tinha visto antes. Seu cheiro era deliciosamente incomum, e fazia-me sentir bem. Fitei-a com o canto dos olhos e a enxerguei de perfil. Ao meu ver, um rosto comum, porém bonito. Usava uma blusa de alças, preta, bem decotada. Cabelos negros, cacheados, indo até o cotovelo, com uma franja lisa acima dos olhos. Não reparei em mais detalhes pois logo voltei a olhar para frente. Morro de vergonha quando alguém percebe que estou o observando, e ela parecia ter percebido.
Passando-se alguns minutos, o meu ponto chegara. Mexi na mochila e segurei o fichário, como quem estivesse se arrumando para levantar, na esperança de que ela percebesse. Sucesso! Notou e logo levantou do banco, dando espaço para que eu saísse. Assustei-me na hora em que me posicionei ao corredor e vi aquela multidão aglomerada. Meio desesperada e trêmula, enquanto pedia licença, fui esbarrando e me esmagando no meio daquela gentarada, tentando chegar à porta do ônibus antes que fechasse. Estava tão... perto! Droga, era tarde demais. A porta fechou e eu fiquei. Frustrada e morrendo de vergonha, fiz uma cara feia e não encarei ninguém até a parada seguinte.
- Hihi, ficou, foi?
- Sim. – Virei para ver a cara do infeliz que me tinha feito a pergunta. Logo mudei minha expressão irônica para uma envergonhada, ao ver quem era. Sim, era ela, a “morena cheirosa”, como a apelidei nos meus pensamentos.
- Que coisa. Ônibus cheio é complicado, né?
O ônibus parou. Abriram-se as portas, e desci seguida por ela.
- É, bastante. – Dei um sorriso sem graça.
- Uhum, ontem aconteceu comigo também. É muito frustrante, mas passado algumas horas, achei graça. É sempre assim. – Deu uma risada divertida, e eu retribuí.
Seguimos a mesma direção, em silêncio, até que ela virou a segunda rua à esquerda.
- Tchau. Até mais! – Acenou e sorriu. Retribuí, novamente."

Por Suzana Piazza, 2008.