quarta-feira, 28 de abril de 2010

Retalho 2

Capítulo Um


"Era quinta-feira, dia quinze, e chovia forte. A cidade estava um caos, o trânsito parado, pessoas correndo para debaixo de qualquer lugar coberto, aglomerando-se, e eu, não muito diferente, corri e me enfiei em uma cafeteria. Ah, aquele cheirinho de café no fim da tarde... Era tudo tão novo e mágico! Nunca gostei de mudanças, mas confesso que esses aromas e sensações novas em seus inícios são maravilhosos.
A cafeteria era uma graça, baseada em arquitetura inglesa, com tudo muito delicado e detalhado, mas muito apertada. Em quinze minutos, ou nem isso, eu estava quase sufocando. As pessoas não paravam de chegar; era muita gente para pouco espaço. Faltava tão pouco para chegar em casa... Apenas quatro quadras!
Não agüentei por muito tempo e decidi arriscar. Posicionei a mochila sobre minha cabeça na tentativa de amenizar a água que viria a me molhar, e saí cafeteria a fora. Dei sorte! A chuva havia enfraquecido, chegando a tornar-se chuvisco. Sorri e diminuí o passo, andando tranquilamente. Podia sentir o cheirinho de terra molhada, o que me causou uma leve sensação nostálgica, a qual me invadiu e arrepiou por inteira. Lembrou-me minha antiga cidade, minha infância, as inúmeras vezes em que brinquei pela pequena mata próxima da minha casa, e até mesmo quando beijei pela primeira vez. Quantas doces lembranças, quanta saudade! Mas não pude apreciá-las por muito tempo; logo a chuva voltou à sua fúria, parecendo mais violenta a cada passo que eu dava. Voltei a acelerar minha caminhada, afinal ainda faltavam três quadras.
Em pouquíssimo tempo a mochila sobre minha cabeça já não era mais útil. Estava tão encharcada quanto eu, e a chuva não parava de aumentar sua intensidade. Agora, acompanhada de uma ventania, chegava a machucar meus braços e costas, vez ou outra inclusive interferindo meus passos. Andei mais um pouco, me esforçando para enxergar o que havia à minha volta, e, com muita dificuldade, consegui.
Concluí então que minhas opções eram somente duas: ou continuava o caminho para casa debaixo daquela chuva em cólera, ou refugiava-me, até a tempestade se acalmar, para um templo ali próximo. Pensei seriamente em insistir na ida para minha casa, mas desisti assim que um enorme e pesado galho atingiu o chão a milímetros de mim.
Corri velozmente para o tal templo e me posicionei sob uma borda de seu telhado exótico. A água caía com tanta força, e o vento estava tão furioso, que quase era em vão tentar me proteger lá. Mas eu não tinha escolha, aquele era o lugar mais seguro até então.
Passando-se alguns minutos, ouvi um ruído de porta se abrindo. Curiosa, e na esperança de ser acolhida, andei em direção ao barulho, chegando ao fim da parede na qual eu me encostava. Parei ao lado de uma escada, larga, de poucos degraus, que levava à entrada principal do templo. Olhei para cima e avistei uma enorme porta, de estilo oriental, escancarada. Não avistei ninguém, e lá dentro parecia estar vazio.
- Com licença, senhorita – Pulei de susto! Um senhor, careca e tão baixinho quanto eu, com vestes típicas de monges (a propósito, religião: nunca entendi, qualquer que fosse) havia cutucado um de meus ombros."

Escrito em 11/02/09, por Suzana Piazza.

(Este retalho pretendo costurar com outros que já tenho em mãos. Gostaria de fazer um belo vestido com eles).

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Retalho 1

"Sentou ao meu lado. Em todos os meus dias pegando aquele mesmo ônibus, nunca a tinha visto antes. Seu cheiro era deliciosamente incomum, e fazia-me sentir bem. Fitei-a com o canto dos olhos e a enxerguei de perfil. Ao meu ver, um rosto comum, porém bonito. Usava uma blusa de alças, preta, bem decotada. Cabelos negros, cacheados, indo até o cotovelo, com uma franja lisa acima dos olhos. Não reparei em mais detalhes pois logo voltei a olhar para frente. Morro de vergonha quando alguém percebe que estou o observando, e ela parecia ter percebido.
Passando-se alguns minutos, o meu ponto chegara. Mexi na mochila e segurei o fichário, como quem estivesse se arrumando para levantar, na esperança de que ela percebesse. Sucesso! Notou e logo levantou do banco, dando espaço para que eu saísse. Assustei-me na hora em que me posicionei ao corredor e vi aquela multidão aglomerada. Meio desesperada e trêmula, enquanto pedia licença, fui esbarrando e me esmagando no meio daquela gentarada, tentando chegar à porta do ônibus antes que fechasse. Estava tão... perto! Droga, era tarde demais. A porta fechou e eu fiquei. Frustrada e morrendo de vergonha, fiz uma cara feia e não encarei ninguém até a parada seguinte.
- Hihi, ficou, foi?
- Sim. – Virei para ver a cara do infeliz que me tinha feito a pergunta. Logo mudei minha expressão irônica para uma envergonhada, ao ver quem era. Sim, era ela, a “morena cheirosa”, como a apelidei nos meus pensamentos.
- Que coisa. Ônibus cheio é complicado, né?
O ônibus parou. Abriram-se as portas, e desci seguida por ela.
- É, bastante. – Dei um sorriso sem graça.
- Uhum, ontem aconteceu comigo também. É muito frustrante, mas passado algumas horas, achei graça. É sempre assim. – Deu uma risada divertida, e eu retribuí.
Seguimos a mesma direção, em silêncio, até que ela virou a segunda rua à esquerda.
- Tchau. Até mais! – Acenou e sorriu. Retribuí, novamente."

Por Suzana Piazza, 2008.